sábado, 7 de julho de 2007

A arte de se inconformar
Chego. Com a mesma desenvoltura de um mimo, abro com cuidado uma gaveta invisível: pucho o ferrilho e deposito meu texto com o cuidado de deixá-la entre-aberta. Jamais fechada. Sou a terceira passageira a embarcar nesta viagem.
Sim, porque este blog é uma viagem na qual nunca sabemos onde vamos parar.
Quando a Lá me convidou tardiamente a fazer parte do Desalinhando veio aquele sorriso no rosto de quem nao tinha sido convidada antes e a pergunta de se a regra do fórum era escrever textos dramáticos observando as metades dos copos mais vazios da vida. Ela me respondeu que nao necessáriamente. Mas no fundo, acho que nao , Lá. E sabe porque?
Todos os textos aqui sao inconformistas. O meu, o seu, o dela e os nossos. E o dos amigos nossos, os dos que nao sao tao amigos e os dos que nao sao e nunca vao ser.
Me explico: acredito que todo escritor é um inconformista. Ou inconformado, - além de inconformista, sou semi-analfabeta e contrária a procurar dicionários neste lapso de insonia as 3 da manha - nao sei.
Fundamentar minha tese é fácil: basta com dizer que se nao estivesse inconformado(decidi que esta é a palavra certa), o escritor nao escreveria. Entao alguém do fundo da platéia grita: mas e se for um texto que divague sobre a felicidade plena?
É entao que eu digo: - Bem, meu caro, se nao estivesse inconformado com o fato de nao haver um texto sobre felicidade plena que o satisfaça, ele nao escreveria algo que represente, na medida certa, o que ele quer. Nao acha?
Enfim, reitero: todo escritor seja ele um escritor de verdade ou um menino aprendendo a escrever é um inconformista(e eu sou indecisa quanto a palavra, sim, eu sei.) porque sentiu a necessidade de expressar. Sentiu que ainda nao escreveram um bom texto sobre o que ele quer escrever. Sentiu a necessidade de escrever aquilo que quer escrever. Mesmo que seja sobre a felicidade, o escritor escreve sobre ela para dar seu ponto de vista.
Talvez seja algo mais banal como escrever só porque se sente inconformado diante de uma folha branca, o principal desafio de um escritor.
E se passarmos este assunto ao fato de que sou futura jornalista(acredite se quiser), escrever vai ser o meu ganha-pao - do jeito que estou indo, vou ter que roubar pra viver, nas horas vagas. É, talvez eu me dedique mesmo a política... - e ser inconforme vai ser a minha força-motriz. E meu principal inimigo vai ser a censura.
Tanto a censura que as vezes me auto-imponho quanto a censura externa, sendo esta última um agravante na sociedade. Neste século, por exemplo, teve grande importância nos países que sofreram ditaduras. Sou bem apolítica porém o fato de nao poder expressar aquilo que sinto me deixa inconformada. Seja na escrita, na voz, na música ou qualquer ato de comunicaçao, a censura é o grande mal de qualquer inconformado. E por incrível que pareça ela está por aí, ronda esquinas e ruas à espreita de suas novas vítimas.
Aqui no Chile mesmo aproximadamente 17 anos depois do período militar eu presenciei um forte ato de censura na minha universidade no qual uns murais artistícos feitos por alunos da faculdade de humanas(em sua maioria, esquerdistas) foi apagado durante as férias. Isso causou extrema repulsa da comunidade universitária que acusou o nosso reitor de ditador por mandar apagar os murais e pôr grades na universidade só porque os murais tinham imagens que iam contra as políticas da universidade(guerrilheiros, armas, Che Guevara e etc...).
Reitero: sou apolítica e o que resgato desse fato é que acima de tudo os muros eram uma expressao artística de um grupo de pessoas independente de seu conteúdo era um bonito trabalho e uma lembrança que ficaria para as geraçoes mais novas afinal nao adianta tentar matar isso na UFRO e nem no Chile: a tinta ainda está fresca demais e o ressentimento ainda é tao forte que é impossível nao notá-lo.
E nao só isso. Talvez a censura que mais dói é aquela que veem de quem voce menos espera. Mais do que impotencia é um soco bem dado no estômago que deixa aquela sensaçao de choque. Talvez nao só a censura mas também alguma atitude do tipo. Talvez a pessoa nao tem conhecimento que feriu com seus atos porém eu acredito que toda pessoa, conforme ou inconforme, escritor ou nao, seja lá qual for sua visao sobre qualquer assunto, tem que saber como se expressar de maneira a saber respeitar pontos de vistas diferentes. E as vezes nao é o que se diz o que incomoda e sim a forma. Eu acredito que a forma é tudo. Eu nao me importo que você venha me dizer que eu sou uma idiota metida-a-besta se você o dizer de uma forma na qual eu possa aceitar a crítica e tentar melhorar - nao o fato de melhorar e ser mais idiota, porém...Ah, voce entendeu...- se puder. Eu aceito críticas desde que sejam bem ditas. Nem que utilize eufemismos mas acredito que se aprendessemos a expressar o que queremos de uma forma correta, muitos mal-entendidos e problemas na comunicaçao seriam evitados.
Enfim, sou inconforme com isso aí também e o fato de ser censurada por alguém que amo e que nao espero que o faça dói e muito. E eu nao desejo isso à ninguém. Desejo que amigos façam críticas e sejam bem sinceros porém em quanto a censurar minha opiniao de forma ditatorial é algo que nao aceito porque sou jornalista e é uma qualidade innata da profissao ser contra a censura. É como o médico e seu bisturi ou um engenheiro e sua calculadora científica.
E bem, isso é tudo o que eu queria expressar porque estava com este nó de disconformismo(mais outra indecisao) preso na garganta. E pra finalizar, deixo um texto com as palavras de um grande autor(cujo nome nao lembro as 4 da manha, sorry):


"(...)Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece, e nem repetidas com fervor, apenas respeitadas."


E serás respeitada(o) também.

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